Sunday, June 1, 2025

Colecciones etnográficas, cosmopolíticas de la memoria y pueblos originarios



"Colecciones etnográficas, cosmopolíticas de la memoria y pueblos originarios del río Negro en los museos", de Renato Athias (2023), publicado no livro Territorios, migraciones y fronteras en Iberoamerica uma publicação internacional das Ediciones Universidad de Salamanca

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Resenha:

O capítulo "Colecciones etnográficas, cosmopolíticas de la memoria y pueblos originarios del río Negro en los museos", de Renato Athias (2023), publicado no livro Territorios, migraciones y fronteras en Iberoamerica uma publicação das Ediciones Universidad de Salamanca, representa uma contribuição, em língua estrangeira, inovadora para o campo da antropologia, museologia e estudos sobre patrimônio cultural. O texto examina as coleções etnográficas dos povos indígenas do Alto Rio Negro, abordando suas dimensões cosmológicas e sociopolíticas, com ênfase namrelação entre objetos rituais e as formas de organização social e cosmologia desses povos.

Vinculado ao atual projeto de pesquisa do autor: Povos Indígenas, Restituição, Antropologia Visual e a Gestão Compartilhada de Coleções Etnográficas. A originalidade do capítulo reside na articulação entre pesquisa etnográfica, análise de coleções museológicas e o ativismo indígena, revelando a relevância de tais objetos não apenas como testemunhos materiais, mas como agentes de memória e identidade cultural. A pesquisa conduzida pelo autor se destaca por mapear coleções etnográficas em museus europeus e norte-americanos, proporcionando um panorama detalhado sobre a dispersão desses acervos e suas implicações para os povos originários. Esse mapeamento, resultado de um pós-doutorado financiado pela CAPES e apoiado também por sua bolsa de produtividade, é um avanço significativo na restituição virtual (conceito elaborado pelo autor em 2016), material desses objetos etnográficos às comunidades indígenas.

Outro aspecto inovador do trabalho é sua conexão com o projeto do Museu Virtual dos Povos Indígenas do Alto Rio Negro, uma iniciativa desenvolvida em São Gabriel da Cachoeira, em colaboração com lideranças e curadores indígenas. Esse projeto visa ressignificar narrativas museológicas, descolonizando a história dos objetos ao substituir discursos colecionistas por relatos indígenas sobre suas próprias tradições e experiências históricas. Além disso, o capítulo se insere em uma linha de pesquisa mais ampla que envolve acadêmicos e estudantes em temas como restituição de bens culturais, antropologia visual e gestão compartilhada de coleções etnográficas.

O impacto do trabalho do autor se evidencia em múltiplos âmbitos. Na esfera acadêmica, sua produção tem sido referência para estudos sobre coleções indígenas, contribuindo para debates em congressos internacionais e na formação de estudantes no bacharelado em Museologia da UFPE. No cenário global, sua atuação como vice-presidente da Comissão de Museus e Patrimônio Cultural da IUAES resultou no lançamento de uma Task-Force no congresso da World Anthropological Union (WAU), Johanesburgo 2024, com o objetivo de desenvolver mecanismos administrativos e legais que apoiem as reivindicações indígenas em relação as restituições e repatriação de objetos etnográficos.

Assim, este capítulo não apenas amplia o conhecimento sobre as coleções etnográficas do Alto Rio Negro, mas também promove um modelo inovador de pesquisa colaborativa e ativismo acadêmico, fortalecendo o protagonismo indígena na construção de novas narrativas museológicas e patrimoniais.

 

Friday, November 22, 2024

"A Maloca Tukano-Dessana e seu Simbolismo", de Casimiro Béksta (1988)

por Renato Athias

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Em A Maloca Tukano-Dessana e seu Simbolismo, Casimiro Béksta se aprofunda no significado etnográfico e simbólico da maloca — casas comunais tradicionais centrais para as vidas culturais, sociais e espirituais de muitos grupos indígenas na Amazônia.
O trabalho serve como uma exploração histórica e analítica, revisitando fontes etnográficas antigas e traduzindo observações fundamentais em uma estrutura acadêmica moderna. Béksta se baseia significativamente nos escritos de Alfred Russel Wallace e, mais proeminentemente, Theodor Koch-Grünberg, um etnólogo alemão cujo extenso trabalho de campo na Amazônia durante o início do século XX fornece rica documentação de tradições indígenas, cultura material e cosmologia.

Ao traduzir esses relatos seminais para o português e situá-los dentro dos debates contemporâneos sobre o significado da maloca, Béksta faz uma contribuição vital para a acessibilidade desses recursos para estudiosos lusófonos. As descrições detalhadas da maloca de Koch-Grünberg destacam seu papel duplo como uma estrutura física e um símbolo cosmológico. Como Béksta observa, Koch-Grünberg documentou como a maloca funciona como um microcosmo do universo, com seu layout arquitetônico frequentemente refletindo crenças cosmológicas.

Os polos centrais representam o eixo do mundo, enquanto o telhado simboliza o céu. Essas estruturas não são meramente abrigos, mas são imbuídas de camadas de significado, servindo como espaços onde rituais, narrativas e decisões comunitárias se desenrolam, reforçando assim a coesão social e a continuidade cultural. Béksta enriquece sua análise com elementos visuais, incluindo esboços de designs de maloca, para fornecer aos leitores uma visão geral de sua diversidade arquitetônica.

Em última análise, [o livro] serve como um tributo à etnografia pioneira de Koch-Grünberg e um convite para investigar mais a fundo a maloca como um espaço dinâmico de identidade cultural e resistência.

Essas ilustrações, inspiradas pelas meticulosas notas de campo de Koch-Grünberg, oferecem uma sensação tangível da escala das estruturas, métodos de construção e detalhes estéticos. Ao revisitar e contextualizar os insights de Koch-Grünberg, Béksta demonstra como as observações etnográficas do início do século XX permanecem relevantes para a compreensão do significado duradouro da maloca. Seu trabalho ressalta a importância de traduzir e atualizar fontes históricas, garantindo que elas informem as discussões contemporâneas sobre sistemas de conhecimento indígenas e preservação cultural.

Em última análise, A Maloca Tukano-Dessana e seu Simbolismo serve como um tributo à etnografia pioneira de Koch-Grünberg e um convite para investigar mais a fundo a maloca como um espaço dinâmico de identidade cultural e resistência. Por meio dessa síntese de passado e presente, Béksta fornece um recurso atraente para acadêmicos e estudantes de culturas amazônicas, antropologia e estudos indígenas.

Tuesday, April 20, 2021

Um erro tipográfico que persiste, após quase 200 anos: o falso etnônimo packi em Puri

 por Marcelo Sant’Ana Lemos

A Revista do IHGB, volume 5, impressa em 1843, trouxe em um de seus artigos uma cópia do texto extraído do livro tombo da Freguesia de São João Batista de Queluz, escrita pelo vigário Francisco das Chagas Lima, primeiro pároco daquela localidade, quando ela era ainda uma capela rústica do aldeamento dos indígenas Puri de Queluz, criado em 1800.

No texto que tinha o título “Notícia da fundação e princípios d’esta Aldêa de S. João de Queluz” ele procurava caracterizar o modo de vida dos Puri. Nele temos a explicação do significado do etnônimo Puri ou Pucki, que de acordo com os próprios indígenas queria dizer: gente mansa ou tímida.

No momento que o documento original foi transcrito, para ser feita a versão impressa ocorreu um erro, não sabemos se do tipógrafo ou do sócio do IHGB que copiou o texto que lhe foi passado. Assim o termo Pucki se transformou em Packi, conforme se observa na página 73 da referida revista.

Dessa forma desde 1843, diversos historiadores e memorialistas têm repetido esse erro baseado nessa fonte impressa. Autores como Paulo Pereira dos Reis, que tiveram a oportunidade de consultar o livro tombo original, que se encontra na paróquia de Queluz, não caíram nessa armadilha!

No arquivo e Biblioteca do Instituto de Estudos Valeparaibanos, na cidade de Lorena (SP), que tivemos a oportunidade de visitar em 2010, encontramos diversos documentos, cópias fotostáticas dos originais, versando sobre a história da Aldeia de Queluz. Entre eles estavam as imagens do manuscrito original “Notícias da fundação e princípio d’esta Aldêa de S. João de Queluz” registrado no livro tombo da Freguesia de Queluz.

Reproduzimos abaixo a imagem do original para possibilitar a comparação com o texto da Revista do IHGB, que apresenta o erro tipográfico. Assinalamos com uma linha azul a palavra original correta. Claramente se destaca a letra ‘u’, bem diferente da letra ‘a’ que vemos no vocábulo “palavra” logo a seguir.

puckis.png

No texto do IHGB, que reproduzimos adiante, a mesma passagem com o erro assinalado em vermelho:

packis.png

Por conta da dificuldade de acesso à fonte original ou a obras que reproduzem o conteúdo correto, mas se tornaram raras como, por exemplo o texto: “Os Puri de Guapacaré e algumas achegas à história de Queluz”, de Paulo Pereira dos Reis, publicado em 1965; na Separata do número 61 da Revista de História, é que encontramos ainda hoje o mesmo erro reproduzido em textos acadêmicos e de divulgação.

Um dos mais recentes foi o de Eduardo Rivail Ribeiro, que em seu texto “O Catecismo Puri do Padre Francisco das Chagas Lima” para os Cadernos de Etnolingüística, volume 1, número 1, de janeiro de 2009, dá ao equívoco tipográfico o status de praticamente a única contribuição linguística de Chagas Lima para língua Puri; que ele encontrou no documento, além do antropônimo Vuti, conforme se observa na nota 4 do seu texto.

No livro Aldeamentos indígenas do Rio de Janeiro, um excelente texto de divulgação sobre os indígenas do Rio de Janeiro, de José Ribamar Bessa Freire e Márcia Fernanda Malheiros, já em segunda edição, pela Eduerj, do mesmo ano do texto de Ribeiro (2009), também encontramos o termo, porém com a grafia aportuguesada para “paqui” (página 15).

Está mais do que na hora de corrigir esse equívoco!

Sunday, April 18, 2021

Dia 18 de abril de 2020: Uma carta


Aldevan, Ana Carla, Kaina & Waina


Oi, eu não  sei se você  está  pescando lá  pelas bandas da Ilha Oscarina (Rio Negro), se você anda caçando ou andando de bicicleta.  Por onde está...

Nas "internets" e "redes sociais" deste outro plano de encantamento, não sei se você está acompanhando o que está  acontecendo pelas bandas de cá!!

As meninas e eu sempre falamos de você: quando assistimos a um filme; quando comemos peixe assado (e claro, nenhum é  igual  ao  seu); quando vemos alguma postagem sarcástica nas redes sociais; e sempre quando a campanhia toca por mais tempo do que deveria (pois você tinha mania de ficar segurando quando vinha nos visitar).

Apesar do cansaço  mental, da sensação  de impotência  e das dores das perdas (e olha, foram muitas), estamos bem!!! MAS  o Brasil, o Brasil:

  • Você  ainda estava entre nós quando o Mandeta saiu do ministério. Mesmo neste cenário de pandemia, já estamos com o quarto Ministro da Saúde;
  • O perfil  dos doentes de covid mudou, os pacientes agora são mais jovens;
  • Mesmo depois de 1 ano, continuanos usando máscara, mas ainda  existem pessoas que não acreditam na importância de seu uso;
  • Ainda não podemos aglomerar, abraçar ou encontrar as pessoas que gostamos;
  • Perdão, as meninas e eu ainda não conseguimos abraçar Sr. Emílio, Dona Joana Brazao, nossos sobrinhos(as), Tania Elias, Maria do Socorro Elias, Magson Jesus. 

Encontrei André Brazão e Lindomar Brazão na comunidade indígena Parque das Tribos,  por meio de um projeto de pesquisa de que estou participando. 

Vi Solange Brazão e nos abraçamos com os olhos quando Joanita precisou ser internada quando Manaus sufocava por falta de oxigênio. 

Sim, no dia 14 de janeiro, aqui em Manaus, vivenciamos um cenário de horror... pacientes de Covid morreram por falta de oxigênio nos hospitais. E agora, tristemente o Brasil todo está passando por situações similares...

Hoje, Manaus vive uma "amnésia coletiva", parece que a pandemia acabou... e as pessoas insistem nas baladinhas. Por outro lado, os profissionais da saúde continuam tentando salvar vidas neste cenário caótico... mas saiba, eles estão exaustos e precisando de afeto e respeito. 

Como eu poderia esquecer??? A Ciência e os cientistas venceram o tempo!!! Ao mesmo tempo, ambos sofrem com o negacionismo e as fake news. Mas temos VACINAS!! Mesmo com um número pequeno, devido a um "probleminha de gestão e diplomacia". Apesar disso, o sistema SUS (para o qual você trabalhava) está dando seu melhor.

Kaina, Wina e eu, logo que você se encantou, fizemos 1000 tsurus de origami pela cura do mundo.

Infelizmente, estamos vivenciando uma segunda onda:

  • Atualmente, em média, temos 3 mil mortes por dia;
  • Já atingimos mais de 370 mil mortos pela doença. Triste não é? 
  • Agora no domingo de Páscoa, Solange, Sr.Emílio e Magson fizeram uma surpresa: fizeram peixe e beiju para nós. Matamos a saudade de seu peixe. (Penso que cozinhar para o outro é uma demonstração de afeto)
  • Sim, como poderia esquecer? O livro Brilhos na Floresta já foi traduzido para Baniwa, uma das línguas Yanomami, Kaingang e Guarani, além de sua versão em Nheengatu e da tradução para Tukano, que você chegou a ver... 
  • Você conhece bem a nossa amiga Noemia Kazue Ishikawa, ainda estamos fazendo estripulias, pensando na década das Línguas Indígenas do Mundo, que será comemorada entre 2022 e 2032. Mas saiba, o grupo de pesquisa "Cogumelos da Amazônia" sente sua falta.

Não importa onde você esteja, suas filhas e eu esperamos que você esteja bem neste plano dos encantados.

Ana*, Kaina e Wina.

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*Ana Carla Bruno é antropóloga (INPA) e coordena, com Noemia Kazue Ishikawa (também do INPA), o Projeto Aldevan Baniwa.

Sunday, November 3, 2019

Empirismo preconceituoso

por Peter Schröder*
É impressionante constatar que o pequeno estudo de Mabel Vianna, de 1966, é um dos trabalhos sobre os Fulni-ô que pode ser encontrado com maior facilidade em bibliotecas brasileiras, o que não tem nada a ver com suas qualidades. Trata-se da publicação dos resultados de um levantamento realizado em 1961 pela Seção de Educação Sanitária do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, vinculado ao antigo DNERu (Departamento Nacional de Endemias Rurais, 1956-1970), do Ministério da Saúde, sobre o quadro epidemiológico do meio rural nordestino, sobretudo com relação ao tracoma. Os Fulni-ô de Águas Belas faziam parte do universo estudado por Vianna.

Tuesday, August 6, 2019

Fulni-ô às pressas

por Peter Schröder
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O principal mérito deste pequeno trabalho é que ele foi publicado na década de 1970, da qual temos poucos textos científicos sobre os Fulni-ô e nenhum etnográfico. Ou seja, existe um hiato entre as etnografias de Pinto (1956)1 e de Hernández Díaz (1983).2 Na realidade, não se trata, no caso do trabalho de Gonzaga de Mello, de nenhuma etnografia, o que o título poderia sugerir, mas apenas de diversos apontamentos daquilo que se sabia sobre os Fulni-ô no meio acadêmico da época.

Tuesday, October 2, 2018

Salzano na luta

por Renato Nicolai*

O geneticista Francisco Salzano (1928-2018) faleceu na semana passada, deixando um grande legado científico construído ao longo de mais de meio século. Mas, além de sua conhecida obra acadêmica, vale lembrar aspectos menos conhecidos de sua atuação como pesquisador. O texto abaixo, moção apresentada ao II Encontros Intelectuais de São Paulo (1961), nos oferece uma visão do cientista além de seu mister, ou seja, em sua luta em defesa da terra indígena como bem maior da comunidade. Trata-se de uma moção para que se apresentasse à Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul um ofício manifestando a oposição dos cientistas presentes a um projeto-de-lei que tentava espoliar povos indígenas de suas terras (algo, infelizmente, ainda muito atual): 

Saturday, December 30, 2017

Os Fotógrafos do Tuxaua Mandu


Em 2015, quando eu estava trabalhando no acervo fotográfico da Província Franciscana de Santo Antônio, em Recife, com as imagens dos Tiriyó, eu encontrei um retrato do tuxaua Mandu entre as demais fotografias desse rico acervo. Desde então eu fiquei bastante intrigado. Como essa fotografia apareceu nesse acervo? Eu não tive dúvida nenhuma que aquele retrato que estava nas minhas mãos era realmente do tuxaua Mandu, pois já conhecia fotografia semelhante no acervo da Coleção Etnográfica Carlos Estevão de Oliveira do Museu do Estado de Pernambuco.

Tuxaua Mandu retratado por Koch-Grünberg, 1903 

Tuesday, October 17, 2017

Cacique Tataru: aventuras heroicas em Rondônia

por Hein van der Voort
A história é relativamente simples, mas Snethlage a usou para contar sobre suas próprias observações e experiências etnográficas durante sua estada nas florestas da bacia do rio Branco em Rondônia em 1934.



Além de trabalhos científicos e seu livro popular Atiko Y, Emil Heinrich Snethlage escreveu também uma história para jovens. O livrinho Häuptling Tataru: Aus dem Leben eines Wayoro-Indianers ‘Cacique Tataru: da vida de um índio Wayoró’ é a história de um jovem indígena Wayoró que, ao retornar de uma caçada na floresta, acompanhado de seu amigo Pito, descobre que um grupo de índios Tuparí, perigosos inimigos dos Wayoró, haviam ateado fogo em sua aldeia, matado os homens e levado embora as crianças e mulheres que sobreviveram ao ataque. Tataru e seu amigo organizam um ataque com os membros de uma outra aldeia Wayoró contra os algozes, para se vingarem e tomarem as mulheres e as crianças de volta. A história envolve também um amigo Makurap (relacionado aos Wayoró por casamento), um grupo de Arikapú aliado com os Tuparí e um traiçoeiro pajé “Jabutí” (Djeoromitxí). (Essa pequena descrição acaba aqui para não revelar o final da história, que é baseada em um relato verdadeiro.)

Monday, September 18, 2017

Um exemplar de "Actualidade indígena" (Borba 1908) com anotações de Nimuendajú

por Renato Nicolai*
Pesquisador independente, Renato Nicolai escreve sobre um item especial de sua coleção bibliográfica: um exemplar de Actualidade indígena (Borba 1908) contendo anotações a lápis e dedicatória de Curt Nimuendajú. Em excelente estado de conservação, o exemplar foi cuidadosamente digitalizado por Renato especialmente para os usuários da Biblioteca Digital Curt Nimuendajú.

Nas mãos de especialistas pode ser que [as anotações de Nimuendajú] acrescentem algumas migalhas ao conhecimento acumulado sobre as línguas indígenas brasileiras, e por essa razão a obra merecia ser escaneada com carinho e dada a público na Biblioteca Digital que leva o seu nome.

Certo dia comentei com meu pai, Nelson Nicolai, que tinha comprado essa obra no sebo do Messias, em São Paulo, mas que o exemplar, embora encadernado incluindo a capa original, estava sem o frontispício e no final faltavam três das estampas. Em resposta a meu comentário sobre a compra e o estado do livro do Borba, me informou que tinha essa obra — também comprada no Messias, que a gente frequentava desde a inauguração, sempre garimpando as 'nossas' preciosidades — e mais: com o autógrafo do Nimuendajú.

flickr:37098419096Ele, que que sempre vivera rodeado de livros, trabalhou em livrarias, foi chefe de revisão da Cia. Ed. Nacional e depois foi dono de sebos (embora sua obsessão fosse a de insano caçador e leitor de livros, a ponto de muitas vezes manter o próprio sebo fechado para rodar a cidade atrás de livros). Reuniu algo em torno de 35 mil volumes, doou cerca de 8 mil que agora estão na Unicamp, vendeu uns 5 mil para amigos e conhecidos e se recolheu com o restante a uma chácara de minha irmã em Atibaia.

Depois de sua morte em 2002, cerca de 150 volumes de sua biblioteca, com alguma referência a grupos e línguas indígenas, vieram parar em minhas mãos. Ansioso, ao folhear o seu exemplar do Borba, descobri que estava íntegro, e não só tinha a assinatura e a dedicatória de Nimuendajú a um amigo, Fritz Besser, como ainda trazia várias anotações a lápis com a letra dele. Nas mãos de especialistas pode ser que elas acrescentem algumas migalhas ao conhecimento acumulado sobre as línguas indígenas brasileiras, e por essa razão a obra merecia ser escaneada com carinho e dada a público na Biblioteca Digital que leva o seu nome.

*Pesquisador independente, Renato Nicolai é um pioneiro no uso da internet para a divulgação de informações sobre os povos indígenas do Brasil, sendo o criador do site indios.info. Ao longo de décadas, vem compilando uma impressionante coleção bibliográfica sobre o assunto — generosamente compartilhada em seu site e, ultimamente, na Biblioteca Digital Curt Nimuendajú.

Monday, March 13, 2017

Através das Fotografias, as Memórias e Imagens do Cotidiano dos Tiriyó




Laboratório de Antropologia Visual
Universidade Federal de Pernambuco

As atividades com acervos fotográficos respondem muito bem a pergunta outrora formulada por Ana Maria Mauad(1), qual a relação entre história e fotografia? As fotografias em questão nos chamam para entender e compreender o mundo dos índios Tiriyó e essas fotografias nos levam a entender o processo histórico sobre esse povo. Elas nos mostram um mundo que não é mais o mesmo e que passou por profundas transformações em tão pouco tempo. A fotografia poderá ser vista como uma copia fiel do mundo e de seus acontecimentos históricos. Certamente os Tiriyó de hoje gostariam muito de poder ver essas fotografias, para poder entender  um passado que resta na tradição oral, e assim poder acrescentar inúmeras informações, sem dúvida historicamente qualificadas, para esse conjunto de fotografias que discutimos nesse texto.

Thursday, January 19, 2017

Bibliografia Crítica da Etnologia Brasileira

Iniciada em agosto de 2016, a primeira fase do projeto voluntário de extensão “Ampliação da Biblioteca Digital Curt Nimuendajú” tem como objetivo transcrever os verbetes do volume I da Bibliografa Crítica da Etnologia Brasileira (Baldus, 1954) e disponibilizar os links para as obras, mapas e fotografias disponíveis na Biblioteca Digital Curt Nimuendajú e em acervos de outras bibliotecas online, com o cuidado de preservar os detalhes da grafia utilizada pelo autor e encontrada nos trechos citados. Dessa forma, o acesso de pesquisadores e interessados em estudos com indígenas à extraordinária produção de Herbert Baldus, bem como aos trabalhos que o etnólogo prestigia e reprova, será simplificado. A equipe do projeto é coordenada pela Profa. Aline da Cruz e conta com a participação de Amanda Vallada e Keila Mariana Silva, alunas de graduação da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás.  

Tuesday, October 4, 2016

Cauiré Imana — o cacique romanceado

por Peter Schröder

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Este ano reli um pequeno livro que tinha lido em 1991, depois de terminar uma pesquisa de campo para o doutorado na Terra Indígena (TI) Cana Brava, dos Guajajara, situada entre as cidades de Barra do Corda e Grajaú, no Maranhão. Trata-se de Cauiré Imana, o cacique rebelde, de Olímpio Martins da Cruz (Brasília: Thesaurus, 1982, 142p.). O livro tem a ver, indiretamente, com a pesquisa realizada — as formas de organização política contemporânea dos Guajajara em sua contextualização histórica — e por isso tinha despertado minha curiosidade. Segundo uma informação na página sobre o autor na Wikipédia, até foi lançada uma reedição em 2015, porém ela não pôde ser confirmada por consulta no website da editora até a data da publicação desta resenha.

Embora o livro seja qualificado de “romance” em algumas páginas na internet, a meu ver este rótulo não é pertinente, no que diz respeito à forma e ao conteúdo da obra. É antes um relato semi-ficcional com algumas pretensões de meticulosidade científica.

Friday, February 26, 2016

"A thing of beauty": urucú's place among the Eastern Timbira

urucum.jpgA recently-published article (Moreira et al. 2015) has suggested that urucú (or annatto; Bixa orellana), a plant whose seeds produce a widely-used coloring agent, was probably domesticated in South America. Rondônia (western Brazil), the likely birthplace of cassava, is once again a strong candidate to have given the world yet another important agricultural item. For the historical linguist, a fascinating piece of information — not mentioned in the article — strongly corroborates the antiquity of the plant in the region: a name for 'urucú' can apparently be reconstructed for Proto-Tupí (cf. Rodrigues 2010), which is supposed to have been spoken in Rondônia about 5 thousand years ago.

Wednesday, February 3, 2016

Nimuendajú e a praça



A disponibilidade online de décadas de documentação da Câmara Municipal de São Paulo (a partir de 1948) permite que acrescentemos mais uma interessante nota de rodapé à saga póstuma de Curt Nimuendajú. Em 1960, um projeto de lei de autoria do vereador José Freitas Nobre foi apresentado ao legislativo paulistano propondo que se desse "a denominação de Kurt Nimuendaju à praça sem nome localizada na Cidade Universitária, em frente ao edifício onde funciona a Secção de Ciências Sociais."

A idéia havia partido da Sociedade Brasileira de Sociologia, que enviara ao vereador uma proposta demonstrando o merecimento de Nimuendajú, em cuja "personalidade associavam-se o cientista de notável valor e o cidadão exemplar, o que lhe permitiu fôsse, a um só tempo, um etnólogo cujos trabalhos científicos alcançaram renome universal e um defensor incansável dos nossos silvícolas." A proposta previa, inclusive, a construção, no mesmo local, de uma cripta em que seriam "recolhidos os despojos mortais do grande antropólogo."1

Wednesday, December 9, 2015

Um cowboy alemão nos sertões do Brasil

por Elena Welper*

Em tempo de celebração dos 70 anos da morte de Curt Nimuendajú (17/04/1883-10/12/1945), surge mais uma vez a oportunidade de falar sobre este pesquisador autodidata que é hoje consagrado como um dos fundadores da etnologia brasileira. Não caberá aqui, porém, repetir a apresentação biográfica que acompanha os tantos escritos sobre sua a vida e obra, mas penso ser interessante recuperar algumas imagens que oferecem uma perspectiva mais subjetiva de suas experiências etnográficas.

Wednesday, December 2, 2015

An unpublished English translation of Ploetz & Métraux (1930)


The material civilization and social and religious life ofthe Žè Indians of Southern and Eastern Brazil is an English translation of an article originally published in French in the Revista del Instituto de Etnología de la Universidad Nacional de Tucumán (1930), an Argentinian journal then under the editorship of Alfred Métraux.1 So far unpublished, the carbon-copied typewritten manuscript was located among the collection of bibliographical materials on Jê and Macro-Jê groups compiled by anthropologist William Crocker (Curator Emeritus, NMNH/Smithsonian Institution) throughout his long and productive career. Digitized by Barbara Watanabe (Museum Specialist, NMNH/Smithsonian Institution), the document is here made publicly available for the first time.2

The manuscript contains a number of handwritten corrections, and was obviously based on the published version, since the corresponding page numbers are indicated in the margins. The precise date of the translation, as well as the translator's identity, remain unknown. It is rather likely, however, that the translation was not made by Métraux himself, since it contains mistakes which he would have avoided. The handwritten corrections, on the other hand, are probably in Métraux's own hand.3

Saturday, April 25, 2015

"Promiscuidade que desmoraliza o civilizado e aniquila o índio"

por Salvador Pane Baruja*
“Vergonhosa é a usurpação, em conivência com as autoridades, das últimas terras ocupadas pelas tribos (…) como também o é o estado de promiscuidade sórdida que tanto desmoraliza o civilizado como aniquila o índio”. (Curt Nimuendajú, “Algumas considerações sobre o problema do indio no Brazil”)
A frase acima, extraída desse inédito documento incluído na primeira biografia de Curt Nimuendajú em português, aponta para o que, aparentemente, ele considerava ser o aspecto central das relações entre indígenas e não-indígenas: a extinção física e religioso-cultural dos primeiros significava perdas morais e civilizatórias para os últimos.

Wednesday, October 15, 2014

Curt Nimuendajú cinematográfico


(...) como devo escrever, a fim de que o homem, não importa quem seja,
emerja das páginas da história a seu respeito com a força da palpabilidade física
de sua existência, com a irrefutabilidade de sua realidade semi-imaginária,
com a qual o vejo e o sinto?
Este é o ponto como entendo, este é o segredo da questão...
(Maksim Górki, em carta para Konstantin Fedin)


É com alegria e uma certa apreensão que escrevemos este texto para a Biblioteca Digital Curt Nimendajú. A alegria se deve ao fato de saber que compartilhamos uma admiração, quase culto, à figura de Curt Nimuendajú, que aqui dispensa apresentações – único lugar até o momento onde falamos sobre ele sem preâmbulos. E apreensão, por nossa abordagem heterodoxa e, antes de tudo pessoal, sobre este ícone da etnologia.

Um filme de longa-metragem é uma obra circunscrita em certos limites: duração rígida, expressão artística&comercial, equipe polifônica, público de massa... Evidentemente, as variantes são muitas e flexíveis. A abordagem de um tema, seja em forma de documentário ou ficção, demanda um verdadeiro trabalho de concisão na etapa da escrita do roteiro e depois, durante a montagem. Mas, uma vida como a de Curt Nimuendajú é assunto para mil e uma noites. Então, para lidarmos com esses condicionamentos “roubamos no jogo”: ora simplificando, ora ampliando, ora estilizando – pensando sempre na preservação da essência. Afinal, “o papel de toda obra de arte se impõe à necessidade da exposição coerente e orgânica do tema, do material, da trama, da ação, do movimento interno da sequência cinematográfica e de sua ação dramática como um todo.”[1]

Sunday, May 4, 2014

Community-based production of the Alto Perené-Spanish illustrated thematic dictionary

by Elena Mihas

The Alto Perené-Spanish illustrated thematic dictionary is a third instance of community-based production of language materials for individual native households, bilingual teachers, and community leaders in the Upper Perené valley of Chanchamayo Province, Peru. This Western Amazonian Arawak language of Kampan subgrouping is on a downward trajectory, spoken by the parental and grandparental generations. Radical socio-economic changes of the last century had a significant impact on the community’s ways of living and speaking. The most notable transformations are transition from subsistence economy to cash economy based on fixed-field agriculture, and a shift from monolingual to bilingual social interaction among the indigenous population. Due to a growing awareness among native speakers of the rapid language shift to the language of wider communication, Spanish, important language documentation and revitalization work has been undertaken since 2009. Between 2009 and 2014, over 50 community members have been engaged in the production of two multi-genre text collections, Añaani katonkosatzi parenini and Upper Perené Arawak narratives ofhistory, landscape, and ritual, and a thematic dictionary, Iñani katonkosatzi. Diccionario temático ilustrado Alto Perene-castellano. All three projects have been managed by the language consultant team led by Gregorio Santos Pérez, a bilingual specialist and supervisor of the area’s 26 bilingual elementary school teachers employed by the local Department of Education. Reflecting the collective nature of the endeavor, the contributors’ pictures were prominently placed on the first pages of the dictionary. The team’s work has received the necessary support from the community’s influential political figures. In 2009, the language documentation project was endorsed by the tribal chief of Bajo Marankiari Osbaldo Rosas, and in 2011, by the president of the local political organization CECONSEC (Central de las Comunidades Nativas de la Selva Central), Héctor Martin Manchi.