Monday, March 13, 2017

Através das Fotografias as Memórias e Imagens do Cotidiano dos Tiriyó




Através das Fotografias 
as  Memórias e Imagens do Cotidiano dos Tiriyó

Renato Athias
Laboratório de Antropologia Visual
Universidade Federal de Pernambuco

As atividades com acervos fotográficos respondem muito bem a pergunta outrora formulada por Ana Maria Mauad(1), qual a relação entre história e fotografia? As fotografias em questão nos chamam para entender e compreender o mundo dos índios Tiriyó e essas fotografias nos levam a entender o processo histórico sobre esse povo. Elas nos mostram um mundo que não é mais o mesmo e que passou por profundas transformações em tão pouco tempo. A fotografia poderá ser vista como uma copia fiel do mundo e de seus acontecimentos históricos. Certamente os Tiriyó de hoje gostariam muito de poder ver essas fotografias, para poder entender  um passado que resta na tradição oral, e assim poder acrescentar inúmeras informações, sem dúvida historicamente qualificadas, para esse conjunto de fotografias que discutimos nesse texto.
A Coleção Iconográfica do acervo da Província Franciscana de Santo Antônio no Recife deve possuir cerca de 8.000 mil fotografias acumuladas desde o século XIX até a presente data. São fotografias realizadas sobre o trabalho pastoral e deixadas pelos Franciscanos que viveram nessa província. Com o recendente de trabalho de restauração e acondicionamento do acervo provincial percebeu-se que esse legado é um acervo imenso e retratam justamente o interesse e os trabalhos abnegados dos frades da província ou seja, o que os frades tinham interesse em registrar e mostrar aos outros.
Entre as fotografias desse acervo, encontra-se um conjunto específico e bastante significativo de fotografias, que passamos agora chamar de Acervo Fotoetonográfico da Coleção Iconográfica do acervo da Província Franciscana de Santo Antônio no Recife, pois constitui-se principalmente de imagens sobre os povos indígenas. Acredita-se, que todas essas imagens estejam relacionadas a índios que vivem em lugares onde os franciscanos mantiveram e mantem missões religiosas. Portanto, são fotografias que mostram os Tiriyó, os Mundurucu, os Wayana, os Apalaí, os Xiriana, todos dessa região do Baixo Amazonas dos municípios de Oriximiná, Óbidos e Santarém onde os franciscanos atuam como missionários.
O que nos interessa aqui, é descrever um conjunto de 202 fotografias, que se encontram em um ótimo estado de conservação, e acredita-se também, que esse conjunto de imagens pode ter sido realizado pelo mesmo fotógrafo, e revelado em uma mesma época, e, se refere especificamente a um povo indígena determinado, são fotografias que retratam o cotidiano da vida dos índios Tiriyó, habitantes do Rio  do Oeste, próximo a Serra do Tumucumaque, no Estado do Pará.
De acordo a nossas investigações sobre esse acervo percebemos que algumas dessas fotografias encontram publicadas no livro do Protásio Frikel (1912-1974) ex-franciscano que viveu muitos anos entre os Tiriyó. Ele escreveu um livro cujo titulo é: Os Tiriyó - Seu Sistema Adaptativo, na coleção "Völkerkundliche Abhandlungen des Niedersächsischen Landesmuseums Hannover", 5. Hannover (38) em 1973, organizada por Hans Becher, publicado exatamente um ano antes do seu falecimento. E esse conjunto de fotografias poderia ter sido usado para editar algumas fotos que se encontram nesse livro. E, justamente por causa desse fato que associamos essas fotografias ao povo Tiriyó. Trata-se de um livro onde ele relata a cultural material com muita ênfase. Podemos ainda perceber, tanto através do texto de Hans Becher, quanto pelo conjunto de fotografias, que o Frikel tinha outros projetos editoriais sobre esses índios.
Todas essas fotografias desse acervo tem um foco específico, todas elas refletem a vida cotidiana dos Tiriyó, os detalhes das fotos mostram esses índios trabalhando em seu dia-a-dia. Mostram o que fazem quando estão juntos na aldeia, mostram os seus utensílios de uso cotidiano e de instrumento de músicas que usam durante suas festas. Colocam e evidência o traçado da palha e o conjunto de cestarias que esses índios produzem. Chegam a mostrar o trabalho de fiação feito com o algodão, a palha, o arumã e o cipó.
Fazendo uma análise mais detalhada dos conteúdos das fotografias, pode observar, que todas elas poderiam se encaixar perfeitamente na seguinte classificação: Imagens retratos, mostrando rostos e detalhes do corpo das pessoas, essas fotos em geral se tem um close no rosto da pessoa retratada, dando ênfase na pintura corporal, e sobretudo, nos adornos de cabeça. Outras fotos podemos ver os detalhes das moradias, das casas enfatizando o material em que essas habitações são construídas. Um grupo significativo de fotos podemos ver os índios em seus trabalhos do dia-a-dia em sua aldeia. São fotos descontraídas onde se percebe que as pessoas retratadas têm uma familiaridade com o fotografo, essas pessoas estão sentadas, no chão, trabalhando com as mãos, mostrando teares, objetos de trabalho, pessoas fiando algodão, trabalhando com palhas, produzindo arcos, trabalhando a mandioca, mostrando recipientes de líquidos em cerâmicas e recipientes em palhas mostrando diversos tipos de cestos. Um outro conjunto de fotos pode-se observar a armaria objetos de uso na caça tipos de flechas e bordunas. As fotografias também retratam objetos de rituais, instrumentos musicais e mostram festas que foram realizadas, entre as quais, encontra algumas fotografias onde podemos observar a entrada de homens e mulheres, que recepcionadas como caçadores, e a entrega de jabutis. Aliás esse ritual está descrito no livro de Frikel referido acima sobre os Tiriyó.
            Seguramente esse conjunto de fotografias tem o olhar de Frikel, foi realizada por alguém que quer mostrar aspectos específicos da cultura material Tiriyó. Mas, até a presente data, não sabemos quem foi o fotografo desse excelente conjunto de retratos.
        O editor do livro Hans Becher, menciona muitos outros apoiadores da publicação, mas em nenhum momento menciona o nome do fotografo das imagens publicadas. 
           Entre essas fotografias, encontra-se uma delas que chama a atenção. Trata-se de uma fotografia de grupo. E o mais interessante, que neste acervo, encontra-se o negativo em vidro, dessa fotografia de grupo. Juntamente com os índios, encontram-se três homens sem identificação. Há dois deles, bastante parecidos com Protásio Frikel e Frei Thomás Kockmeyer.  Através do necrológico publicado pela Revista de Santo Antônio, no ano de 1958 os dois viajaram juntos para esta região quase 7 meses. Viagem esta, confirmada através de uma carta que o próprio Frei Tomás escreve ao seu Provincial em exercício nesse mesmo ano.  Evidentemente nesse caso temos duas possibilidades lógicas. Porém, existe fortes evidência que essas fotografias tenham sido realizadas pelo Frei Thomás.   E nesse sentido acreditamos que o próprio Frikel tenha pedido ao Frei Thomás para fazer as fotos, pois elas seguem um roteiro que pudemos perceber em seu livro sobre os Tiriyó. Essa questão ainda vai perdurar por algum tempo. Mas, sem dúvida nenhuma, o achado dessas fotografias nos permitirá a ter uma noção bem mais clara dos acontecimentos históricos nesse processo de transformação social sofrida pelos Tiriyó do Rio Paru do Oeste na região da Serra do Tomucumaque no Pará.

(1) Mauad, A. M. Através da imagem: fotografia e história interfaces. In: Tempo, Rio de Janeiro, vol. 1, n °. 2, 1996, p. 73-98.
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Essas Fotografias abaixo fizeram parte da Exposição: "História, Arte e Vida Franciscana" realizada pela Província Franciscana de Santo Antônio, em Junho de 2015 sob da Curadoria de Débora Mendes O Arquivo Provincial Franciscano do Recife fica na Avenida Dantas Barreto, Edifício Santo Antônio, nº 191, sala 418 – bairro de Santo Antônio (Recife/PE).  O Catálogo geral da exposição encontra-se nesse link:

https://issuu.com/danielvilarouca/docs/0000catalogo_diagramacao_03_06_fina_fb5b670464c4fd/8


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Thursday, January 19, 2017

Bibliografia Crítica da Etnologia Brasileira

Iniciada em agosto de 2016, a primeira fase do projeto voluntário de extensão “Ampliação da Biblioteca Digital Curt Nimuendajú” tem como objetivo transcrever os verbetes do volume I da Bibliografa Crítica da Etnologia Brasileira (Baldus, 1954) e disponibilizar os links para as obras, mapas e fotografias disponíveis na Biblioteca Digital Curt Nimuendajú e em acervos de outras bibliotecas online, com o cuidado de preservar os detalhes da grafia utilizada pelo autor e encontrada nos trechos citados. Dessa forma, o acesso de pesquisadores e interessados em estudos com indígenas à extraordinária produção de Herbert Baldus, bem como aos trabalhos que o etnólogo prestigia e reprova, será simplificado. A equipe do projeto é coordenada pela Profa. Aline da Cruz e conta com a participação de Amanda Vallada e Keila Mariana Silva, alunas de graduação da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás.  

O primeiro volume da Bibliografa Crítica da Etnologia Brasileira representa um guia essencial para todos os que se interessam pelas pesquisas e trabalhos com indígenas do Brasil. A obra compreende 1785 verbetes que trazem comentários críticos de Baldus sobre estudos publicados que, de alguma forma, abordam aspectos das línguas e culturas dos povos brasileiros. A Comparative Study of Human Reproduction  (Ford, 1945), por exemplo, trata das práticas de reprodução humana por parte de povos em diversos lugares do mundo, e menciona os Apinajé, Makuxi, Taurepang e Tupinambá. Já Die  Lippenlaute der Bantu und die Negerlippen, mit besonderer Berüksichtigung der Lippenverstümmelungen (Cleve, 1903) traz um estudo comparativo sobre a influência dos adornos labiais nos sons labiais em línguas africanas e indígenas, citando os povos Botocudo, Karajá e Suyá. 

Por ter intensão crítica, Baldus elogia e recomenda as obras que aprova e condena as que rejeita. O autor tem em alta conta produções como Los  indios Cainguá del Alto Paraná (Misiones) (Ambrosetti, 1895), Tratados da terra e gente do Brasil (Cardim, 1925), The  Tukuna (Nimuendajú, 1952) e I BororosOrientali "Orarimugudoge" del Matto-Grosso (Brasile) (Colbacchini, 1925). Para referir-se a tais obras, Baldus faz uso de expressões como “fundamental”, “valioso” e “importantíssimo”. Desaprova, contudo, de Migrações e cultura indígena (Costa, 1939), Aspectos sociais das tribus indígenas do Brasil (Boudin, 1949), La civilización guaraní (Bertoni, 1922) e Voyage  pittoresque et historique au Brésil (Debret, 1834). Conforme o etnólogo, trabalhos assim podem ser considerados “sem valor científico”, “pseudo-científicos” e “artiguetes”.

Texto: Amanda Vallada, graduanda Universidade Federal de Goiás, 
participante voluntária do projeto “Ampliação da Biblioteca Digital Curt Nimuendajú"