Sunday, November 3, 2019

Empirismo preconceituoso

por Peter Schröder*
É impressionante constatar que o pequeno estudo de Mabel Vianna, de 1966, é um dos trabalhos sobre os Fulni-ô que pode ser encontrado com maior facilidade em bibliotecas brasileiras, o que não tem nada a ver com suas qualidades. Trata-se da publicação dos resultados de um levantamento realizado em 1961 pela Seção de Educação Sanitária do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, vinculado ao antigo DNERu (Departamento Nacional de Endemias Rurais, 1956-1970), do Ministério da Saúde, sobre o quadro epidemiológico do meio rural nordestino, sobretudo com relação ao tracoma. Os Fulni-ô de Águas Belas faziam parte do universo estudado por Vianna.

Segundo o autor, técnico em “processamento de saúde”, a questão norteadora teria sido verificar a influência de fatores epidemiológicos sobre o perfil demográfico de populações indígenas e avaliar a relação entre o quadro social e econômico dessas populações e seu quadro geral de saúde. Com esse objetivo foram aplicados, segundo o autor, questionários a 75% das “famílias” Fulni-ô. No entanto, Vianna não problematiza o próprio conceito de família com relação a um povo indígena, como se costuma fazer nas ciências sociais, por exemplo. Desse modo, sobram dúvidas sobre a validade dos dados apresentados.

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Depois de um resumo sobre o contexto geográfico e histórico da vida dos Fulni-ô seguem várias seções que parecem ser, à primeira vista, um mero catálogo de “fatos” sobre as condições materiais e epidemiológicas dos Fulni-ô no início da década de 1960. Gráficos circulares e quantificações porcentuais passam uma impressão, ao menos inicial, de objetividade do estudo. A descrição quantificada das situações sanitária e epidemiológica, sobretudo no local mais sagrado, no Ouricuri, dão suporte a constatações sobre um quadro extremamente problemático, para não dizer catastrófico, da situação de saúde da população indígena em Águas Belas. Sintomas do tracoma, por exemplo, foram constatados em 65,4% da população indígena (p. 42).

Há detalhes que despertam curiosidade e surpresa quando comparados com a situação atual. O autor observou a ausência de lixo nas ruas e a explicou com a extrema pobreza da população indígena, que teria aproveitado praticamente todos os materiais e alimentos disponíveis. Isso é um contraste muito grande com a situação atual, quando qualquer visitante, seja da cidade, seja da Aldeia Urbana, chega a observar imediatamente a onipresença do lixo em todas as partes.

A impressão inicial da objetividade do estudo, no entanto, logo se desfaz com a leitura da primeira página, porque o autor não consegue se abster de publicar suas convicções pessoais, etnocêntricas e carregadas de preconceitos.

A impressão inicial da objetividade do estudo, no entanto, logo se desfaz com a leitura da primeira página, porque o autor não consegue se abster de publicar suas convicções pessoais, etnocêntricas e carregadas de preconceitos. O olhar lançado sobre os Fulni-ô é aquele de “integrantes que somos de um tipo superior de civilização” (prefácio, p. 9). Ou seja, relativismo cultural é um exercício para os outros. O autor enumera diversos “problemas” da vida cultural e social indígena: os “divórcios fáceis” (p. 29), acompanhados por comentários moralistas; o “nível cultural”, “dos mais baixos já encontrados no país” (p. 32), embora haja elogios sobre o artesanato indígena; e na parte “delinquência e mendicidade”, ele cita “vícios” como “o homossexualismo”, um “aspecto deplorável”, a “chaga da prostituição” e até afirma que os Fulni-ô são “viciados a pedir” (p. 35).


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Até nas quantificações, supostamente objetivas, restam dúvidas sobre as categorias aplicadas nos questionários. Quanto aos dados sobre o mobiliário das casas, o que significa “rudimentar”? E quais são, por exemplo, os critérios aplicados para constatar “sem conforto” no quesito “conforto doméstico” (p. 20 ss.)?

Em trechos mais benevolentes, os Fulni-ô são classificados como coitados carentes muito mal assistidos pelo SPI. Aliás, esta é única crítica feita à política indigenista da época.

Resumindo: trata-se de um estudo profundamente permeado por avaliações e julgamentos preconceituosos, sobretudo etnocêntricos. Resta apenas uma dúvida: por que o relatório foi publicado pela SUDENE, com aval elogioso emitido pelo antropólogo Waldemar Valente (1908-1992), vinculado à Fundação Joaquim Nabuco?

  • Peter Schröder é professor do Departamento de Antropologia e Museologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco.

3 comments:

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