Para o estudo das línguas Macro-Jê outrora faladas no leste brasileiro, vocabulários antigos, coletados principalmente no século XIX e no começo do século XX, são essenciais. São, em muitos casos, as únicas fontes disponíveis. Este é caso de todas as línguas das famílias Purí e Kamakã , e de grande parte das línguas das famílias Krenák e Maxakalí. Apesar de seu caráter limitado (tanto em termos quantitativos, quanto qualitativos), tais vocabulários podem fornecer pistas importantes para a compreensão do tronco (vide, a respeito, as recentes dissertações de Andérbio Martins e Ambrósio da Silva Neto, sobre as famílias Kamakã e Purí, respectivamente). Mesmo quando se imagina que já se extraiu tudo o que haveria de aproveitável nestes vocabulários, eles podem reservar alguma surpresa ao pesquisador atento.
Mesmo no caso de línguas que sobrevivem em pleno vigor e que podem hoje ser estudadas mais a fundo, vocabulários antigos permitem uma rara oportunidade de se descobrirem fatos acerca do passado lingüístico recente. Um exemplo que mencionei antes é o empréstimo maritó 'paletó' em Karajá, que, apesar de não ser mais usado hoje em dia, foi documentado por duas fontes da década de 1940. Um outro exemplo que acabo de descobrir é ainda mais interessante. Trata-se de um empréstimo da Língua Geral para 'dinheiro' -- mais um acréscimo à pequena lista de palavras da Língua Geral (Paulista, provavelmente) em Karajá, que descrevi em artigo publicado há alguns anos. [Embora contatos com falantes de Língua Geral Amazônica tenham provavelmente ocorrido ao norte do território Karajá (com falantes de Karajá do Norte e Xambioá), é provável que a grande maioria dos empréstimos tenham vindo da Língua Geral Paulista falada pelos bandeirantes, que foram os primeiros a estabelecer contato com os Karajá da Ilha do Bananal, núcleo populacional deste povo.]
No vocabulário de Eduardo Sócrates (publicado em 1892, representando o dialeto Karajá do Sul; disponível aqui), mais ou menos escondido em uma transcrição à portuguesa e desfigurado por erro tipográfico, lá estava o empréstimo: Intadiná 'dinheiro'. Embora a relação com a palavra para 'dinheiro' usada em Tupinambá (itajuba, de acordo com o Pequeno Vocabulário Português-Tupi do Pe. Lemos Barbosa) e na Língua Geral seja em princípio menos óbvia, um estudo das outras palavras no vocabulário explica as aparentes anomalias:
(1) A transcrição de Sócrates era, provavelmente, Intadiuá, onde a letra u -- substituída por n pelo tipógrafo -- representa o glide /w/ do Karajá. Isto fica claro quando se percebe que o mesmo erro tipográfico ocorre em outras palavras do vocabulário: quèná 'jatobá', por [kɨ'wa]; uaxinaté 'arco', por [waʃiwaha'ɗɛ]; cucêêné 'ema', por [kuƟehe'we].
(2) Refletindo sua pronúncia na maioria dos dialetos do português brasileiro, a seqüência di é usada por Sócrates para representar a africada [dʒ] do Karajá, como atestado em vários exemplos: diatá 'banana' [idʒa'ɗa], diú-hú 'dente' [dʒu'u], adiu 'paca' [hã'dʒu].
Assim, a palavra representada como Intadiná no vocabulário era provavelmente pronunciada como [ĩɗadʒu'wa] ~ [ĩɗadʒu'a], correspondendo perfeitamente ao provável original em Língua Geral (para correspondências semelhantes, vide os empréstimos para 'cavalo' e 'sal' no meu artigo mencionado acima). Caso tenha sido introduzido no tempo dos primeiros contatos entre os Karajá e falantes da Língua Geral Paulista, [ĩɗadʒu'wa] teria sobrevivido por cerca de dois séculos, antes de ser substituído pela atual palavra para 'dinheiro', um empréstimo do português: [nie'ru].
Embora o "Tupí da Costa" e um de seus descendentes, a Língua Geral Amazônica, sejam bem documentados, o conhecimento de seu outro descendente, a Língua Geral Paulista, é bastante limitado (cf. Aryon Rodrigues, "As línguas gerais sul-americanas"). Uma fonte indireta de conhecimento da Língua Geral Paulista acaba sendo, justamente, os empréstimos em línguas de povos com os quais os bandeirantes tiveram contato. Um dos casos mais fascinantes é o do Boróro (cf. Adriana Viana, "Sobre a língua Bororo"), indígenas de Mato Grosso que se aliaram aos bandeirantes no combate a outras tribos indígenas (inclusive os Karajá).
Friday, June 20, 2008
Língua Geral: Mais um empréstimo em Karajá
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Eduardo Rivail Ribeiro
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Monday, June 9, 2008
Kynyxiwe deu samba
Popularizados pela imprensa e por obras da literatura de aventuras (de autores como Willy Aurely e José Mauro de Vasconcelos), os Karajá são talvez um dos povos indígenas que mais espaço ocupam no imaginário popular brasileiro (ou, pelo menos, no Centro-Oeste). Mesmo com isto em mente, não deixou de me surpreender um fato que acabo de descobrir: em 1979, o samba-enredo da escola de samba carioca Estácio de Sá teve como tema as aventuras de Kynyxiwe [kənãʃi'wɛ], "trickster" que, na mitologia Karajá, é o responsável pela aquisição do fogo pela humanidade, entre outras façanhas. Trata-se do samba "Das trevas ao sol, uma odisséia dos Karajás" (de autoria de Elinto Pires e Leleco, interpretado por Leleco; letra e música disponíveis no site da Estácio de Sá):
Olê, olê
Olê, olá (bis)
Se a vida tem segredo
Urubu-rei pode contar
Conta a lenda
Que os Karajás
Vieram do furo das pedras
Tal e
qual os javaés
E os Xambioás
No seu mundo encantado
Só na velhice
que a morte acontecia
E a Siriema despertou, ô ô
A curiosidade que havia
Kaboi, o avoengo reuniu
Guerreiros para explorar a terra
E ficou
desiludido
Resolveu contar tudo a seu povo
Que dividido partiu para um
mundo novo
Kanaxivue
Bravo guerreiro casou com Mareicó
E foi
procurar a luz
Para tornar o seu mundo bem melhor
Morreu numa imensa
odisséia
Quando urubu-rei apareceu
Lhe deu vida, o Sol, as estrelas
E o luar
E assim surgiu
A lenda dos Karajás
Não só de Kynyxiwe consiste o enredo, que também menciona um outro personagem de peso, Koboi [kəbo'i] (que, por sinal, não parece ocorrer no conjunto de histórias que têm Kynyxiwe como protagonista). Imagino que os autores do samba tenham se baseado na literatura etnográfica então existente e desconfio que, mais precisamente, tenham se baseado em trabalhos de Herbert Baldus, considerando, por exemplo, a maneira como escreveram o nome do nosso herói: Kanaxivue (vide o artigo de Baldus, de título idêntico, disponível na Biblioteca Digital Curt Nimuendaju). É claro que o samba toma algumas liberdades poéticas. Mas não deixa de ser uma homenagem bem merecida a uma cultura fascinante.
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Eduardo Rivail Ribeiro
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Sunday, June 1, 2008
Homofonia em Macro-Jê
'Tecer', 'semente', 'fogo'
Nos estudos comparativos das línguas do tronco Macro-Jê (cujas raízes são, em geral, monossilábicas e de estrutura silábica relativamente simples, favorecendo, assim, a existência de homofonia), percebemos que a existência de pares homófonos acaba tendo um valor diagnóstico interessante: se um par homófono em uma língua corresponde a um par homófono em outra, é um bom sinal de que as correspondências fonológicas detectadas estão no caminho correto. Um caso que mencionei em outra ocasião (Ribeiro 2004) é o das raízes 'semente' e 'tecer' em Karajá e Jê, homófonas em ambas as famílias; pesquisando um pouco mais, descobri que a homofonia vai mais além, ocorrendo também em Maxakalí e Rikbaktsá (Ribeiro, a sair):
PJê *sɨ 'tecer', KRJ ɗɨ, MXK xap, RIK -zik
PJê *sɨ 'semente, KRJ ɗɨ, MXK xap, RIK zik 'caroço'
Nas famílias Jê e Maxakalí, a homofonia envolve também a raiz para 'fogo', cuja reconstrução inicial por Davis para o PJê, *kuzɨ, foi revista para *sɨ, graças principalmente aos dados do Panará (generosamente fornecidos por Luciana Dourado):
PJê *-sɨ 'fogo', MXK -xap (cf. Pataxó)
Em Karajá, a raiz para 'fogo', hɛkɔɗɨ, provavelmente inclui um cognato da raiz para 'fogo' nas demais línguas (*-ɗɨ), acrescido de possíveis elementos morfológicos fossilizados (cf. hɛ 'lenha', kɔ 'madeira'). Em Ofayé, as raízes para 'fogo' e 'semente' são parecidas (ʃãw e ʃa, respectivamente), mas não homófonas; se estas forem, de fato, cognatas com as formas Jê, Karajá e Maxakalí correspondentes, é provável que a homofonia não remonte ao Proto-Macro-Jê (o que parece ser corroborado também pelo Rikbaktsá izo 'fogo' e o Kipeá i-su 'fogo' -- se bem que, neste último caso, as formas para 'semente' ou 'tecer' não foram, aparentemente, documentadas).
'Carne', 'espinho', 'mão'
Tudo isto para servir de introdução a um outro caso interessante de homofonia em Macro-Jê. Em nossos estudos comparativos demonstrando a inclusão da família Jabutí no tronco Macro-Jê, Hein van der Voort e eu (a sair) havíamos notado que as raízes para 'carne' e 'espinho' são homófonas tanto na família Jabutí, quando na família Jê [exemplos do Apinajé (Jê) e Djeoromitxí (Jabutí)]. Mais uma vez, esta homofonia ocorre também em outras famílias do tronco Macro-Jê, como Rikbaktsá (-ni 'espinho', -ni 'carne') e, de certa forma, Karajá (onde, caso cognata, a forma para 'espinho' incluiria elemento morfológico extra) e Chiquitano (onde a forma para 'carne', ñ-añêe, parece incluir elemento morfológico fossilizado; cf. Adelaar 2005: cognato 23).
Apinajé ɲ-ĩ 'carne' (PJê *j-ĩ), DJE nĩ, RIK -ni, CHQ ñ-añêe, KRJ d-ɛ
Apinajé ɲ-ĩ 'espinho', DJE nĩ, RIK -ni, CHQ ñ-êe, KRJ l-ɛdɛ, MXK yĩn
E ainda mais: homófona (ou, em Maxakalí, quase homófona) com ambas as formas é a raiz para 'mão' reconstruída para o Proto-Jê (em compostos), *j-ĩ-, que tem prováveis cognatos em Chiquitano (ñ-êe), Maxakalí (yĩm) e Ofayé (j-ĩ) -- além do Karajá *d-ɛ- 'braço' (homófono de dɛ 'carne'), que ocorre em compostos:
Proto-Jê *j-ĩ- 'mão', MXK yĩm, OFY j-ĩ, KRJ *d-ɛ-'braço' (em compostos)
A mesma ressalva feita acima, com relação à forma para 'fogo' em Ofayé, Maxakalí e Rikbaktsá, deve ser feita aqui com relação à forma para 'mão' em Maxakalí: caso seja, de fato, cognata, isto sugeriria que a homofonia entre 'mão', de um lado, e 'carne'/'espinho', de outro, não remontaria ao Proto-Macro-Jê. [Há muito ainda a se aprender sobre as consoantes finais em Macro-Jê.]
Em um tronco cuja unidade genética é, para alguns, improvável, exemplos como estes -- especialmente no caso de 'semente'/'tecer' e 'carne'/'espinho', que, a julgar pelas evidências disponíveis no momento, teriam sido homófonos em Proto-Macro-Jê (Ribeiro, a sair) -- ajudam a reforçar as hipóteses de parentesco, corroborando ou aprimorando correspondências levantadas anteriormente. A menos, claro, que no final se determine (o que eu duvido) que se trata não de homofonia pura e simples, mas de padrões bem documentados de polissemia. Será?
Fontes:
Os dados do Karajá e do Ofayé são resultados de meu trabalho de campo. Os do Djeoromitxi são de Hein van der Voort. Dados do Apinajé foram obtidos da tese de doutorado de Christiane Cunha de Oliveira (2005). Dados do Chiquitano foram extraídos da "Arte y Vocabulario de la Lengua Chiquito" (1880), de Lucien Adam e Victor Henry (disponível aqui). Dados do Maxakalí e do Rikbaktsá foram extraídos dos dicionários de Popovich & Popovich (2005) e Tremaine (2007), respectivamente, ambos disponíveis no site do SIL Brasil.
Referências:
Adelaar, Willem. 2005. Relações externas do Macro-Jê: O caso do Chiquitano. To appear in Stella Telles (editor), Atas do V Encontro Macro-Jê.
Ribeiro, Eduardo R. 2004. Prefixos relacionais em Jê e Karajá: um estudo histórico-comparativo. Línguas Indígenas da América do Sul (LIAMES), 4:91-101.
Ribeiro, Eduardo R. (a sair). A reconstruction of Proto-Jê (and its consequences for the Macro-Jê hypothesis).
Ribeiro, Eduardo R & Hein van der Voort. (a sair). Nimuendaju was right: the inclusion of the Jabutí language family in the Macro-Jê stock. To appear in International Journal of American Linguistics (special volume on historical linguistics in South America, edited by Spike Gildea and Ana Vilacy Galucio).
[Clique aqui para fazer o download deste "post" em PDF.]
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Eduardo Rivail Ribeiro
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Saturday, May 31, 2008
Anthology of Brazilian Indian Music
Lançada originalmente em 1962, a coletânea Anthology of Brazilian Indian Music, reunindo canções Karajá, Javaé, Krahô, Suyá, Trumai, Tukuna, Juruna e Txukahamãe coletadas por Harald Schultz e Vilma Chiara, pode ser adquirida online no site do Smithsonian Global Sound (aqui). Mesmo para quem não planeja adquirir o CD inteiro, é possível adquirir canções "a granel". De toda forma, vale a pena visitar o site, já que é possível ouvir amostras de cada uma das canções. Acompanha o CD um guia (que pode ser baixado gratuitamente), escrito por Schultz e Chiara, com informações sobre os povos representados na coletânea. [Para mim, foi interessante saber que a canção "Juparaná", tão popular entre os Karajá, seria de origem Txukahamãe.]
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Saturday, May 10, 2008
Excursión a los Indios del Araguaia (Sekelj 1948)

O artigo inclui, além de informações etnográficas e fotos do cotidiano Karajá, um vocabulário Karajá-espanhol, fornecido por indivíduos da aldeia Karajá do Sul de Aruanã (então Leopoldina), Goiás. A transcrição do vocabulário é razoavelmente confiável (principalmente quando comparada com a de vocabulários anteriores, e mesmo com obras de alguns contemporâneos, como Frei Luiz Palha). O vocabulário de Sekelj é particularmente útil para corroborar outras fontes da mesma época. Um exemplo é o empréstimo maritó 'paletó', que eventualmente viria a cair em desuso; documentado por Sekelj e Brito Machado, é um item útil para ilustrar adaptações fonológicas de empréstimos em uma época em que os Karajá tinham menor familiaridade com o português.
Leia mais: Sobre o autor (Wikipédia, Esperanto.Net); Kumewawa, o filho da floresta (em sérvio); sobre a revista Runa: Archivo para las Ciencias del Hombre.
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Tuesday, October 9, 2007
'The season of hunger': a note on historical semantics
As I mention in the "About" page, I'm currently working on a reconstruction of Proto-Jê, the common ancestor of the languages grouped under the Jê family (numbering around ten). Although similarities between the members of the family are generally easy to spot, a few cases prove a little more challenging (both phonologically and semantically).
One of the recently reconstructed Proto-Jê words, *prãm 'hunger', is inherited in Southern Jê (Kaingáng and Xokléng languages; the latter is now commonly referred to as Laklãnõ) with the meaning 'summer' (see Wiesemann's dictionary, for Kaingáng, and Bublitz's 1994 master's thesis, p. 47, for Laklãnõ). Although it is not hard to think of a plausible semantic connection between both concepts, some sort of independent confirmation is always welcome. In well-studied families, such as Indo-European, seemingly unlikely semantic connections can ultimately be proven to be true thanks to the existence of written documentation (in addition to the fact that the phonological correspondences are better established, etc.). In lesser-known families or stocks (such as Jê and Macro-Jê), such corroboration is much harder to come by. One has to look somewhere else for corroborating evidence.
Sometimes, one or more related languages provide the "missing (semantic) link". For instance, the likely cognate of the Proto-Jê word *kra 'offspring' in Karajá is ra 'nephew', a possibility that went unnoticed by Davis (1968, 'Some Macro-Jê relationships,' IJAL). The semantic connection between both is far from obscure. But, if one is still unsure, the fact that the cognate in Xavánte (Central Jê) means both "offspring" and "nephew" makes the plausibility of the hypothesis even more obvious. (By the way, the likely Karajá cognate for Proto-Jê *prãm is rǝma 'hunger', illustrating the same process of cluster simplification seen with ra 'nephew'.)
Sometimes the semantic change under consideration is documented elsewhere (a fact that corroborates the plausibility of the hypothesis). In our case in point ("hunger" > "summer"), for instance, there is in the Mataco family a root that shows a similar semantic scope, in which a season comes to be associated with 'hunger': "invierno, época de hambre" (from Verónica Grondona's handout "Algunos cognados en las lenguas dela familia mataca", presented at the 52nd International Congress of Americanists, Seville, 2006). Other pieces of evidence which may shed light on the possible historical circumstances underlying the semantic change may be found in the ethnographic literature. In our case, the following passage, from Jules Henry's Jungle People (1964, p. 6), on the Xokléng, may be elucidating:
"The Kaingáng [Xokléng] are hungry in winter and early spring. Then the tracks of animals are hard to interpret and the tapir can run far and fast, for it is no longer burdened with its young and the forest is cool. To the Kaingáng the tapir is not only the most important food, it is the very symbol of food. When they have no tapir meat there is very little meat of any kind, for the tapir is most plentiful when the wild fruits and nuts are ripe, and when these are gone the monkeys and birds, the rodents and pigs, the deer and the tapir that have fed on them for months, grow scarce or vanish altogether.[...] Summer, with its warmth, its dryness, and its plenty, brings comfort at last to these people [...]."
The only apparent problem with this theory is how to reconcile the fact that (in the available literature)
Águas de março nem sempre fecham o verão. In rural Brazil (at least Central Brazil, as far as I can tell), 'summer' is the lack of rain; 'winter' is the rainy season. The farmer and the weather person (as well as Tom Jobim!) may be talking about very different things with the "same" words.
Update (October 10, 2007, morning)
In response to a query I sent to the Etnolingüística list, Wilmar D'Angelis (UNICAMP), an expert on Kaingáng language and culture, provided me with very interesting insights into this issue (which prompted the corrections above, in
An afterthought (October 10, 2007, evening)
D'Angelis suggests that the fact that both "hunger" and "year" occur one after the other in Wiesemann's dictionary is in itself a good reason to consider them as (etymologically) connected. I guess it is quite the contrary: the fact that the author lists them in two different entries suggests that she saw them as a case of homonymy, not polysemy. This is one of those cases where the border between both categories is blurred -- and that's exactly what makes the kind of ethnographic data mentioned by Jules Henry (and D'Angelis himself) so important.
Tuesday, May 1, 2007
In den Wildnissen Brasiliens (Krause 1911)
In den Wildnissen Brasiliens (Fritz Krause, 1911), um dos grandes clássicos da etnografia sobre os Karajá (incluindo também informações sobre outras tribos da região do Araguaia), está agora disponível online, através do Google Books Library Project. O livro pode ser lido ou baixado (em pdf) aqui.
Esta obra já havia sido traduzida ao português por Egon Schaden (com prefácio de Herbert Baldus) e publicada ao longo de várias edições da Revista do Arquivo Municipal, entre 1940 e 1944 (com o título "Nos sertões do Brasil"). Esta versão brasileira, infelizmente, não inclui o interessante apêndice lingüístico, contendo dados do Karajá, do Javaé e do Kayapó; por esta razão, este apêndice do original alemão havia sido um dos primeiros trabalhos incluídos na Biblioteca Digital Curt Nimuendaju.
Considerando-se o fato de que a tradução de Schaden está distribuída em vários números da Revista do Arquivo Municipal, e que não muitas bibliotecas possuem coleções completas deste periódico, a publicação online do original alemão é mais do que bem vinda. Ainda mais bem vinda seria uma publicação, em livro, da tradução brasileira. Será que há projetos neste sentido?
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Eduardo Rivail Ribeiro
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